quinta-feira, 8 de junho de 2017

O ESPÍRITA NÃO CHORA!?

O filho mais novo de Helena e Lauro fora morto num tiroteio entre policiais e assaltantes. Passado um mês da trágica ocorrência, o casal recebe a visita de duas amigas, Araci e Cleide. Araci, no auge de sua formalidade religiosa, tenta consolar Helena, que se apresenta bastante abatida.

— Minha amiga! Não chore mais. Afinal, você é espirita! Ou não é?

E Cleide acompanha Araci.

— Araci tem razão, Helena. Você sabe que o Junior não morreu.

— A Cleide lembrou bem, amiga, o seu filho não morreu. Ele vive!

E Cleide enfatiza:

— A nossa doutrina comprova essa verdade, Helena!

— Mas, minhas amigas, a separação dói. Machuca.

Araci, entusiasmada, não perde tempo:

— Você tem condições de superar essa dor, amiga!

Cleide complementa:

— Você sempre foi forte, Helena! Araci novamente argumenta:

— A doutrina, companheira, te fez uma pessoa em condições de superar dificuldades dessa natureza.

E Helena, sentida, fala:

— Não é bem assim, Araci. Tenho convicção espirita, porém, o que sinto é verdadeiro. E' real a falta que sinto do Junior!

— Ouça um CD de músicas espiritas para mudar o astral, amiga! — sugere Araci.

— Realmente, não sinto vontade alguma. O vazio que sinto, no momento, a música não preencherá.

Nesse instante, algumas lágrimas rolam pelas faces de Helena. E Araci exclama:

— Não, Helena, não chore! Estamos aqui para distraí-la.

Cleide assevera:

— Todo o pessoal do centro está convicto de que você, Helena, superará essa prova galhardamente, com louvor! Não é mesmo Araci?

— E' isso mesmo! Você, Helena, sempre deu mostras de ser uma pessoa bem trabalhada pela doutrina.

— Mas, minhas amigas, há uma dor real: a falta do Junior! Não posso fingir que esta tudo bem. Ainda estou catando os cacos de mim mesma, para, com o tempo, poder me recompor por inteira.

E Araci sentencia:

— Enxugue essas lágrimas! Espirita não chora, minha amiga!
— Pois então não me posso arvorar em espirita! A saudade do Junior me faz vir lágrimas aos olhos. Há ainda o fato de a desencarnação dele ter sido tão trágica. Dói-me a alma!

— E' a Lei de Causa e Efeito, amiga! Você conhece de sobra tudo isto. Conhece a doutrina mais que ninguém! — volta Araci a argumentar.
E Cleide se esforça para consolar Helena:

— Os seus protetores espirituais não faltarão com seu amparo e ajuda, Helena!

— Entendam bem que minha confiança em Jesus não mudou. Nem nos meus protetores. A minha crença nos princípios doutrinários está mais firme que nunca. Só que passei por uma experiência dificil, que me dilacerou a alma.

Araci sugere:

— Então, Helena, se for do seu agrado, podemos levá-la ao cinema ou ao teatro.

— Nada disso, Araci! Compreendo seu desejo de me ajudar, porém, ainda não me sinto adaptada a nova situação, para que possa atender a esse convite!

E Cleide se coloca a disposição da amiga:

— Mas saiba, Helena, que estaremos a postos para acompanhá-la em qualquer atividade que possa distrai-la!

Araci, entao, finaliza a conversa:

— Voltaremos na semana que vem! Após se despedirem, Araci e Cleide se retiram da casa de Helena, convictas de que colaboraram para a mudança do seu astral, como afirmaram. Logo depois, Lauro chega do trabalho.

— Ola, querida! Como passou o dia?

— Relativamente bem!

— Devagar vamos nos envolvendo novamente com as atividades do dia a dia. No meu caso, o trabalho na empresa tern função terapêutica. Ele me convoca a sair de mim mesmo, por instantes que sejam. E isto me alivia.

— O meu dia a dia é na vida do lar. E' isso, Lauro, me torna mais vulnerável, pois sinto, a toda hora, a falta do envolvimento direto que tinha com o Junior.

— O tempo, meu bem, é o nosso grande remédio!

— Araci e Cleide estiveram aqui!

— Que bom! A companhia dos amigos sempre ajuda nesses momentos.

— De certa forma sim, Lauro. No entanto, elas tem uma forma de pensar a que não me adapto muito. Não posso afirmar que a visita me fez bem.

— Em que sentido não lhe fez bem a visita?!

— Elas acham que, por ser espirita, não devo e não posso chorar.

— Que é isso?!

— A Araci chegou a afirmar, categórica, que espirita não chora.

— Espirita insensível, Helena, realmente não tem como chorar!
— Estou atá questionando as minhas convicções espiritas, marido!

— Que é isso, Helena?! Você é espirita e muito convicta, meu amor.

— Sinto muitas saudades do Junior! Os outros dois passam praticamente o dia inteiro fora, mas ele esteve sempre mais em casa, por ser o caçula!

— Acho que não deve se cobrar tanto, Helena, pois alem da falta do nosso filho, há o fato da trágica morte que o vitimou.

— Isso também me atormenta muito, Lauro.

E Helena prossegue:

— Quando falei na morte trágica do Junior, que, de certa forma, piora o quadro, a Araci, de pronto, falou na Lei de Causa e Efeito, lembrando-me de que, como espirita, devo conhecer muito bem.

— A morte do nosso filho, Helena, está nos maltratando não só pela falta que sentimos dele, mas também pela forma brutal como foi morto. Isso é real!

— Quando me lembro disso, me vem uma revolta grande, Lauro, incompativel com a doutrina que adotamos.

— Contudo, muito compativel com o nosso estágio evolutivo referenciado pela doutrina. Não se cobre tanto, meu amor!

— Que bom ouvi-lo, meu bem! Isso me acalma. Já estava me considerando indigna de ser espirita.

— E' falsa a ideia de que espirita não deve chorar! Não podemos, a titulo de superioridade que não conquistamos, sufocar sentimentos e emoções. Esses sentimentos e emoções represados, contidos, mais tarde se apresentarão, fatalmente, num quadro patológico.

Sentindo o carinho do marido, pelo afetuoso abraço, Helena se tranquiliza.

— Suas palavras me confortam muito! Sinto-me melhor. A visita de Araci e Cleide me deixou muito angustiada.

— Devemos viver essa nossa dor, querida, tentando tirar dela o melhor proveito para o nosso aprimoramento. Inclusive para testarmos o nosso amor pelo Junior!

— Não quero fazer apologia do sofrimento, Lauro! Mas também não posso esconder o que sinto.

— Viver a dor e aprender com ela não é fazer apologia do sofrimento, Helena. Aqueles que não a vivem como aprendizado é que, de forma convencional e superficial, fazem dela um modo excêntrico de viver, com resultados irreversíveis.

— Isso seria autopiedade, não acha, Lauro?

— Também penso assim!

— O que não é o nosso caso.

— E' claro que nao, Helena!

A campainha toca. São os outros dois filhos do casal. E os quatro, ainda recolhendo os escombros do ocorrido, se entretem em conversa que faz pressupor um futuro saudável de conquistas a serem realizadas!