O ESPÍRITA NÃO CHORA!?
O filho mais novo de Helena e Lauro fora morto num tiroteio entre policiais e assaltantes. Passado um mês da trágica ocorrência, o casal recebe a visita de duas amigas, Araci e Cleide. Araci, no auge de sua formalidade religiosa, tenta consolar Helena, que se apresenta bastante abatida.
— Minha amiga! Não chore mais. Afinal, você é espirita! Ou não é?
E Cleide acompanha Araci.
— Araci tem razão, Helena. Você sabe que o Junior não morreu.
— A Cleide lembrou bem, amiga, o seu filho não morreu. Ele vive!
E Cleide enfatiza:
— A nossa doutrina comprova essa verdade, Helena!
— Mas, minhas amigas, a separação dói. Machuca.
Araci, entusiasmada, não perde tempo:
— Você tem condições de superar essa dor, amiga!
Cleide complementa:
— Você sempre foi forte, Helena! Araci novamente argumenta:
— A doutrina, companheira, te fez uma pessoa em condições de superar dificuldades dessa natureza.
E Helena, sentida, fala:
— Não é bem assim, Araci. Tenho convicção espirita, porém, o que sinto é verdadeiro. E' real a falta que sinto do Junior!
— Ouça um CD de músicas espiritas para mudar o astral, amiga! — sugere Araci.
— Realmente, não sinto vontade alguma. O vazio que sinto, no momento, a música não preencherá.
Nesse instante, algumas lágrimas rolam pelas faces de Helena. E Araci exclama:
— Não, Helena, não chore! Estamos aqui para distraí-la.
Cleide assevera:
— Todo o pessoal do centro está convicto de que você, Helena, superará essa prova galhardamente, com louvor! Não é mesmo Araci?
— E' isso mesmo! Você, Helena, sempre deu mostras de ser uma pessoa bem trabalhada pela doutrina.
— Mas, minhas amigas, há uma dor real: a falta do Junior! Não posso fingir que esta tudo bem. Ainda estou catando os cacos de mim mesma, para, com o tempo, poder me recompor por inteira.
E Araci sentencia:
— Enxugue essas lágrimas! Espirita não chora, minha amiga!
— Minha amiga! Não chore mais. Afinal, você é espirita! Ou não é?
E Cleide acompanha Araci.
— Araci tem razão, Helena. Você sabe que o Junior não morreu.
— A Cleide lembrou bem, amiga, o seu filho não morreu. Ele vive!
E Cleide enfatiza:
— A nossa doutrina comprova essa verdade, Helena!
— Mas, minhas amigas, a separação dói. Machuca.
Araci, entusiasmada, não perde tempo:
— Você tem condições de superar essa dor, amiga!
Cleide complementa:
— Você sempre foi forte, Helena! Araci novamente argumenta:
— A doutrina, companheira, te fez uma pessoa em condições de superar dificuldades dessa natureza.
E Helena, sentida, fala:
— Não é bem assim, Araci. Tenho convicção espirita, porém, o que sinto é verdadeiro. E' real a falta que sinto do Junior!
— Ouça um CD de músicas espiritas para mudar o astral, amiga! — sugere Araci.
— Realmente, não sinto vontade alguma. O vazio que sinto, no momento, a música não preencherá.
Nesse instante, algumas lágrimas rolam pelas faces de Helena. E Araci exclama:
— Não, Helena, não chore! Estamos aqui para distraí-la.
Cleide assevera:
— Todo o pessoal do centro está convicto de que você, Helena, superará essa prova galhardamente, com louvor! Não é mesmo Araci?
— E' isso mesmo! Você, Helena, sempre deu mostras de ser uma pessoa bem trabalhada pela doutrina.
— Mas, minhas amigas, há uma dor real: a falta do Junior! Não posso fingir que esta tudo bem. Ainda estou catando os cacos de mim mesma, para, com o tempo, poder me recompor por inteira.
E Araci sentencia:
— Enxugue essas lágrimas! Espirita não chora, minha amiga!
— Pois então não me posso arvorar em espirita! A saudade do Junior me faz vir lágrimas aos olhos. Há ainda o fato de a desencarnação dele ter sido tão trágica. Dói-me a alma!
— E' a Lei de Causa e Efeito, amiga! Você conhece de sobra tudo isto. Conhece a doutrina mais que ninguém! — volta Araci a argumentar.
— E' a Lei de Causa e Efeito, amiga! Você conhece de sobra tudo isto. Conhece a doutrina mais que ninguém! — volta Araci a argumentar.
E Cleide se esforça para consolar Helena:
— Os seus protetores espirituais não faltarão com seu amparo e ajuda, Helena!
— Entendam bem que minha confiança em Jesus não mudou. Nem nos meus protetores. A minha crença nos princípios doutrinários está mais firme que nunca. Só que passei por uma experiência dificil, que me dilacerou a alma.
Araci sugere:
— Então, Helena, se for do seu agrado, podemos levá-la ao cinema ou ao teatro.
— Nada disso, Araci! Compreendo seu desejo de me ajudar, porém, ainda não me sinto adaptada a nova situação, para que possa atender a esse convite!
E Cleide se coloca a disposição da amiga:
— Mas saiba, Helena, que estaremos a postos para acompanhá-la em qualquer atividade que possa distrai-la!
Araci, entao, finaliza a conversa:
— Voltaremos na semana que vem! Após se despedirem, Araci e Cleide se retiram da casa de Helena, convictas de que colaboraram para a mudança do seu astral, como afirmaram. Logo depois, Lauro chega do trabalho.
— Ola, querida! Como passou o dia?
— Relativamente bem!
— Devagar vamos nos envolvendo novamente com as atividades do dia a dia. No meu caso, o trabalho na empresa tern função terapêutica. Ele me convoca a sair de mim mesmo, por instantes que sejam. E isto me alivia.
— O meu dia a dia é na vida do lar. E' isso, Lauro, me torna mais vulnerável, pois sinto, a toda hora, a falta do envolvimento direto que tinha com o Junior.
— O tempo, meu bem, é o nosso grande remédio!
— Araci e Cleide estiveram aqui!
— Que bom! A companhia dos amigos sempre ajuda nesses momentos.
— De certa forma sim, Lauro. No entanto, elas tem uma forma de pensar a que não me adapto muito. Não posso afirmar que a visita me fez bem.
— Em que sentido não lhe fez bem a visita?!
— Elas acham que, por ser espirita, não devo e não posso chorar.
— Que é isso?!
— A Araci chegou a afirmar, categórica, que espirita não chora.
— Espirita insensível, Helena, realmente não tem como chorar!
— Os seus protetores espirituais não faltarão com seu amparo e ajuda, Helena!
— Entendam bem que minha confiança em Jesus não mudou. Nem nos meus protetores. A minha crença nos princípios doutrinários está mais firme que nunca. Só que passei por uma experiência dificil, que me dilacerou a alma.
Araci sugere:
— Então, Helena, se for do seu agrado, podemos levá-la ao cinema ou ao teatro.
— Nada disso, Araci! Compreendo seu desejo de me ajudar, porém, ainda não me sinto adaptada a nova situação, para que possa atender a esse convite!
E Cleide se coloca a disposição da amiga:
— Mas saiba, Helena, que estaremos a postos para acompanhá-la em qualquer atividade que possa distrai-la!
Araci, entao, finaliza a conversa:
— Voltaremos na semana que vem! Após se despedirem, Araci e Cleide se retiram da casa de Helena, convictas de que colaboraram para a mudança do seu astral, como afirmaram. Logo depois, Lauro chega do trabalho.
— Ola, querida! Como passou o dia?
— Relativamente bem!
— Devagar vamos nos envolvendo novamente com as atividades do dia a dia. No meu caso, o trabalho na empresa tern função terapêutica. Ele me convoca a sair de mim mesmo, por instantes que sejam. E isto me alivia.
— O meu dia a dia é na vida do lar. E' isso, Lauro, me torna mais vulnerável, pois sinto, a toda hora, a falta do envolvimento direto que tinha com o Junior.
— O tempo, meu bem, é o nosso grande remédio!
— Araci e Cleide estiveram aqui!
— Que bom! A companhia dos amigos sempre ajuda nesses momentos.
— De certa forma sim, Lauro. No entanto, elas tem uma forma de pensar a que não me adapto muito. Não posso afirmar que a visita me fez bem.
— Em que sentido não lhe fez bem a visita?!
— Elas acham que, por ser espirita, não devo e não posso chorar.
— Que é isso?!
— A Araci chegou a afirmar, categórica, que espirita não chora.
— Espirita insensível, Helena, realmente não tem como chorar!
— Estou atá questionando as minhas convicções espiritas, marido!
— Que é isso, Helena?! Você é espirita e muito convicta, meu amor.
— Sinto muitas saudades do Junior! Os outros dois passam praticamente o dia inteiro fora, mas ele esteve sempre mais em casa, por ser o caçula!
— Acho que não deve se cobrar tanto, Helena, pois alem da falta do nosso filho, há o fato da trágica morte que o vitimou.
— Isso também me atormenta muito, Lauro.
E Helena prossegue:
— Quando falei na morte trágica do Junior, que, de certa forma, piora o quadro, a Araci, de pronto, falou na Lei de Causa e Efeito, lembrando-me de que, como espirita, devo conhecer muito bem.
— A morte do nosso filho, Helena, está nos maltratando não só pela falta que sentimos dele, mas também pela forma brutal como foi morto. Isso é real!
— Quando me lembro disso, me vem uma revolta grande, Lauro, incompativel com a doutrina que adotamos.
— Contudo, muito compativel com o nosso estágio evolutivo referenciado pela doutrina. Não se cobre tanto, meu amor!
— Que bom ouvi-lo, meu bem! Isso me acalma. Já estava me considerando indigna de ser espirita.
— E' falsa a ideia de que espirita não deve chorar! Não podemos, a titulo de superioridade que não conquistamos, sufocar sentimentos e emoções. Esses sentimentos e emoções represados, contidos, mais tarde se apresentarão, fatalmente, num quadro patológico.
Sentindo o carinho do marido, pelo afetuoso abraço, Helena se tranquiliza.
— Suas palavras me confortam muito! Sinto-me melhor. A visita de Araci e Cleide me deixou muito angustiada.
— Devemos viver essa nossa dor, querida, tentando tirar dela o melhor proveito para o nosso aprimoramento. Inclusive para testarmos o nosso amor pelo Junior!
— Não quero fazer apologia do sofrimento, Lauro! Mas também não posso esconder o que sinto.
— Viver a dor e aprender com ela não é fazer apologia do sofrimento, Helena. Aqueles que não a vivem como aprendizado é que, de forma convencional e superficial, fazem dela um modo excêntrico de viver, com resultados irreversíveis.
— Isso seria autopiedade, não acha, Lauro?
— Também penso assim!
— O que não é o nosso caso.
— E' claro que nao, Helena!
A campainha toca. São os outros dois filhos do casal. E os quatro, ainda recolhendo os escombros do ocorrido, se entretem em conversa que faz pressupor um futuro saudável de conquistas a serem realizadas!
— Que é isso, Helena?! Você é espirita e muito convicta, meu amor.
— Sinto muitas saudades do Junior! Os outros dois passam praticamente o dia inteiro fora, mas ele esteve sempre mais em casa, por ser o caçula!
— Acho que não deve se cobrar tanto, Helena, pois alem da falta do nosso filho, há o fato da trágica morte que o vitimou.
— Isso também me atormenta muito, Lauro.
E Helena prossegue:
— Quando falei na morte trágica do Junior, que, de certa forma, piora o quadro, a Araci, de pronto, falou na Lei de Causa e Efeito, lembrando-me de que, como espirita, devo conhecer muito bem.
— A morte do nosso filho, Helena, está nos maltratando não só pela falta que sentimos dele, mas também pela forma brutal como foi morto. Isso é real!
— Quando me lembro disso, me vem uma revolta grande, Lauro, incompativel com a doutrina que adotamos.
— Contudo, muito compativel com o nosso estágio evolutivo referenciado pela doutrina. Não se cobre tanto, meu amor!
— Que bom ouvi-lo, meu bem! Isso me acalma. Já estava me considerando indigna de ser espirita.
— E' falsa a ideia de que espirita não deve chorar! Não podemos, a titulo de superioridade que não conquistamos, sufocar sentimentos e emoções. Esses sentimentos e emoções represados, contidos, mais tarde se apresentarão, fatalmente, num quadro patológico.
Sentindo o carinho do marido, pelo afetuoso abraço, Helena se tranquiliza.
— Suas palavras me confortam muito! Sinto-me melhor. A visita de Araci e Cleide me deixou muito angustiada.
— Devemos viver essa nossa dor, querida, tentando tirar dela o melhor proveito para o nosso aprimoramento. Inclusive para testarmos o nosso amor pelo Junior!
— Não quero fazer apologia do sofrimento, Lauro! Mas também não posso esconder o que sinto.
— Viver a dor e aprender com ela não é fazer apologia do sofrimento, Helena. Aqueles que não a vivem como aprendizado é que, de forma convencional e superficial, fazem dela um modo excêntrico de viver, com resultados irreversíveis.
— Isso seria autopiedade, não acha, Lauro?
— Também penso assim!
— O que não é o nosso caso.
— E' claro que nao, Helena!
A campainha toca. São os outros dois filhos do casal. E os quatro, ainda recolhendo os escombros do ocorrido, se entretem em conversa que faz pressupor um futuro saudável de conquistas a serem realizadas!